O que quebra primeiro num app gerado por IA
Um MVP gerado com assistência de IA faz exatamente o que precisava fazer: transforma uma ideia em algo clicável em dias, e permite descobrir se alguém quer aquilo antes de investir meses. Isso é uma vitória, não um débito.
O débito aparece depois, quando a resposta é sim.
A partir do momento em que existem usuários reais, com dados reais e dinheiro real, a aplicação passa a ser cobrada por propriedades que ninguém pediu na fase de validação. Elas costumam ceder numa ordem previsível.
Primeiro: autorização
É quase sempre o primeiro a quebrar, e o mais perigoso, porque falha em silêncio.
O padrão típico é uma tela que só mostra os dados do usuário atual, com a filtragem acontecendo na consulta que a interface monta. Funciona perfeitamente enquanto todo mundo usa a interface. Mas a interface conversa com uma API, e a API aceita o parâmetro que receber. Trocar um identificador na requisição retorna o dado de outra pessoa.
Não há erro, não há alerta, não há log. O sistema fez o que foi pedido.
A correção não é validar melhor no frontend. É mover a decisão de acesso para dentro do servidor, e de preferência para dentro do dado, de forma que a consulta seja incapaz de retornar o que não pertence a quem perguntou.
Segundo: o banco
Ferramentas de geração costumam conectar a interface diretamente ao banco, com uma chave que o navegador precisa conhecer. Isso resolve o problema de ter que escrever uma API, ao custo de expor a superfície inteira do dado.
Some a isso ausência de índice em campo de busca, ausência de particionamento no que cresce sem parar, e migração aplicada direto em produção sem versionamento. Cada um desses é tolerável isolado. Juntos, produzem um banco que fica lento antes de ficar grande, e que ninguém tem coragem de alterar.
Terceiro: ambientes e reversibilidade
Existe um ambiente. É produção.
Sem ambiente separado, toda mudança é testada com usuário real. Sem versionamento consistente, não há para onde voltar. Sem rollback, o plano de contingência é corrigir para frente sob pressão, que é quando as piores decisões técnicas são tomadas.
Este é o item que mais assusta fundadores quando fica explícito, e o mais barato de resolver dos três.
Quarto: custo
Chega junto com o crescimento e sempre surpreende, porque a fase de validação tem custo desprezível e cria a expectativa errada.
Consulta sem índice multiplicada por dez mil sessões, processamento síncrono que segura capacidade, chamada a modelo de linguagem sem limite por usuário nem cache. A conta cresce mais rápido que a receita, e a diferença entre os dois é descoberta na fatura.
Quinto: dependência da ferramenta
O último a doer e o mais difícil de reverter.
Quando lógica de negócio, esquema de dados, autenticação e publicação estão todos expressos no formato de uma plataforma específica, sair dela deixa de ser uma decisão técnica e vira um projeto. A ferramenta que deu velocidade no início passa a definir o teto.
A ordem da correção não é a ordem da falha
Um detalhe contraintuitivo: a sequência acima descreve a ordem em que os problemas aparecem, não a ordem em que devem ser resolvidos.
Vale estabilizar antes de arquitetar. Fechar autorização, tirar a chave do navegador, criar um ambiente separado e garantir backup restaurável vem primeiro, mesmo que a arquitetura continue feia por mais algumas semanas. Reescrever a arquitetura sobre uma base que ainda está vazando significa migrar o vazamento junto, com mais confiança e menos visibilidade.
Arquitetura bonita com autorização quebrada é só um incidente mais bem organizado.